segunda-feira, 23 de setembro de 2024



Esta coletânea de poemas foi deflagrada pela leitura dos textos de 
Stella do Patrocínio, no livro Reino dos bichos e dos animais é o 
meu nome. A partir disso, se estabeleceu um diálogo em primeira 
pessoa com as várias falas possíveis a partir do lugar da loucura. 
Os textos transitam nesse universo do esquecimento, da fratura e 
do apagamento do ser. Artistas plásticos como Arthur Bispo do 
Rosário, Aurora Cursino dos Santos, Fernando Diniz e Van Gogh, 
e escritores como Maura Lopes Cançado e Lima Barreto, 
todos institucionalizados (e que trazem as marcas dessa 
experiência em seus trabalhos). Assim como psiquiatras e 
estudiosos, como Nise da Silveira e Michel Foucault, que tanto 
contribuíram para melhorar essa relação tão delicada, 
vão impregnando as falas, trazendo o humano à tona. Os textos 
dialogam ainda com outros autores da literatura brasileira que
também tocaram nessas feridas ainda tão abertas.



ponto de vista

a Lima Barreto


daí eu olhei

e vi telha caindo

mas era eu

que tava jogando

lá de cima

cá embaixo

¿mas como eu tô aqui

com telha caindo

e tô lá jogando telha

sou fraco pra altura

logo desci desse desvario

quem fica lá no alto

é passarinho

e eu não tenho pena

sempre que posso

fico lá embaixo

me vendo jogar telha

 


        *



reclame


dentro dos braços

da poltrona

é onde fico bem

na frente da TV

sem som

essa janela

sempre aberta

com gente pastando

não saio não falo

tá tudo muito bão

enquanto eu tiver

a televisão

ontem faltou luz

deus que me livre

fiquei me assistindo

pastando

meu reflexo sem som

lá na TV

tá tudo muito bão

enquanto eu tiver

a televisão

 


        *


lucidez


meu mano vive aí fora

minha cara é a cara dele

dizem que a gente é gêmeo

se for pela parecência

isso lá é

mas ele tá aí

tem trabalho

tem mulher

passeia se diverte

e eu mal posso

chegar no portão

mas dia desses pensei

que podia me fazer de são

ficar no lá fora

vivendo por ele

só não posso me distrair

tenho que manter a cabeça

sempre com um lenço molhado

é que às vezes

tocam fogo nela



        *



não faz sentido


dia demorado

pra passar

é o de visitas

caras velhas

em velhas caras

numa procissão

de dar dó

sento no fundo

do pátio

só pra ver

as reações

trazem agrados

a quem

nada mais agrada

cigarros revistas

e alguma roupa

não faz sentido

é tudo gente louca

outras vezes

algum desgarrado

se aproxima de mim

fala e nada entendo



        *


desfile

a Arthur Bispo do Rosário


como num varal

me estendi

pra ver você passar

fardão do fim

do mundo

e cabelo arapuá

torço pra que

o mundo

se estire

mais um pouco

é que eu quero

ver você

passar de novo


[Poemas do livro ¿quem sou ela. São Paulo: Editora Patuá, 2024]


Informações e venda no link abaixo:

https://www.editorapatua.com.br/%C2%BFquem-sou-ela-poemas-de-silvio-pedro/p


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