sexta-feira, 17 de maio de 2019





COLATERAL

ruas
convidam ao estrondo
de uma fome sem saída

palavras secas
olhar embotado
e a mão
que vacila sintomas

aqui dentro
o exílio

paredes
sem promessas

toda quinta
adio presságios —
com a nova dosagem



SARGAÇO

de tua mão esquerda
em espelho gesto —
surpreende uma concha

a direita
guarda
um aparato de marés

em ambas
âncoras
cravadas num velho mar

contrapondo tudo
teu rosto

escora o silêncio
e faz-se pedra



LIMIAR

de tempos em textos
uma saudade
crivada de guizos

feito esse morro
e seus entraves

entre o sim e o não
de perdas
nessas pedras
:
em longa mudez



CANTO CALADO

essa voz
voz
revestida de sal —
lixando lento
a concha de meu ouvido
essa voz

sabe das manhãs
suas derrotas —
pilhagens
que eu esqueci
essa voz

soa no que eu sou
desmontando as noites antes
antes de meus pesadelos
essa voz

adia o canto
guardado dentro
dessa ode
dessa noite
dessa voz



ZONA DE SOMBRA

arfa em dilúvio
sob a matilha de pneus
ao ruir da aurora —

insinuando-se em margem

e destroços

do chorume
em fel aberto

lambe vias
masca nuvens

e reflete em bronze
uns quantos
sorrisos

cadentes



ARRANJO

uma cantiga
salpica entre os dedos
açúcar e chocolate

melodia de entraves
com pausa
de sol em sal

na fieira de teclas
assenta uma dor
que imola

até tornar
lâmina lua

adormece o acorde —
no desmantelo da noite



LEGADO

trigal de entraves
nas mãos amanhecidas

maresia que transtorna porões
e paredes caiadas

mar
cais
saudade

lembrar
: de esquecer tudo



A CASA

a tarde em cheiros
vasculha o quintal
onde silêncio se avaranda

sol intacto
tateia cada folha

vem beber desse silêncio

de uma janela em falso
um vulto
vocaliza a sombra

ofende a tarde

vento desinteressante põe
chumbo nas nuvens
e atenção nos varais

pernas avultam



BISPO

na avessa espera
a palavra perecível

grunhido esgarço
em desligado objeto

no sumo do caos
a mão utilitária
fia o azul

transgride a sombra
com olho baldio
e entreaberta

a voz
contamina luz
na escuridão



LADY DAY

onde pousa teu lamento
flagra a lua
em pétala de magnólia

mastigando em branco
paredes e cômodos

os escombros da infância

noite nula
em que azeitas a voz ao granizo
e comove à sombra

o zombar
de estranhos frutos



O RIO DA MINHA IDEIA

TEJO
das paixões contidas
no arrastar de rostos
reflexos e casas
que o vão bebendo

TEJO
das embarcações antigas
no arrastar de rezas
e o aceno diminuto
que a espuma apaga

TEJO
das canções perdidas
no arrastar de restos
de poemas e poetas
que o transbordam



SENHORA DO CAOS

da palavra e seu arpejo
sou corda —
       vibrando
no ardor de sua carne

movediça promessa
me quer solo —
aragem de dor e adubo

intermitente —
suas raízes em minhas rezas
subsolam gemidos
     dissolvendo a luz
dos dicionários


[Poemas do livro Inventário Afetivo. São Paulo: Dobra Editorial, 2012] 

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