LÁPIDE
MARIA
ficou oca de mim
quando
de noite
abateu
meus beijos
pôs
fora todos os cheiros e
as
formas que deitei no colchão
MARIA
escavou um grito
quando
de noite
abateu
num sopro
o
pó do meu nome
LÁZARO
hoje
que
fostes viver
ao
rés do chão
retorno
à casa tua
antiga
morada
guardada
ao pó
suspenso
em gestos
para
não mover
um
único grão
pois
quero
tuas
coisas assim
com
olhos
atrás
de gazes
MERGULHO
com
a voz alta
das
vias públicas
e
lâmina surda
os
suicidas
têm
ao alcance
o
aceno pardacento
de
asas pensas
enquanto
a destra
repousa
a
esquerda aderna
NUNCA
ESTIVE COM UMA PUTA
dor
de cabeça
como
esta
quando
então
o
som do SONRISAL
me
ampara
e
deixa vir
a
manhã
mas
ela vem
com
suas franjas sujas
e
um sol
entre
aspas
diacho
de rei
auto
coroado
sempre
se põe entre mim
e
as coisas das quais
só
quero sombra
TESTAMENTO
Escrivaninha
e vaso com flores
secas
Tapete puído Porta da
frente
emperrada Calendário do
tempo
em que as putas eram
gentis
Janela com vidro
trincado
Gavetas com
cartas
trancadas Banheiro
sem
água Abajur com
lâmpada
queimada Cozinha
com
luz piscando Uma cadeira
caída
A corda no teto
e
seu laço Pássaros
crianças
e cigarras
Pendurados
na tarde
PASSAGEIRO
ATÔNITO
que
ninguém
agora
venha
me dizer o
que
já sei
das
tardes tão abruptas
e
o estalar das horas
que
com elas vêm
playground
das coisas infames
vejo
os acenos que passam
mas
não são
para
mim
são
para alguém
que
lá longe vai
dentro
de seus laços
guardado
em papel bonito
e
só
que
ninguém
agora
venha
me dizer o
que
já sou
a Manuel de Freitas
ORAÇÃO
SUBORDINADA
pensei
que a distância entre
minha
fome e teus antúrios
fosse
a comoção do verde
esperança
de te ver como uma árvore ocupando o espaço
a
sombra dessa árvore
e
seus frutos
pensei
que
forçosamente
fosses
um rio
margens
volume
arrancar
de raízes
casas
bichos
pensei
também
que
fosses
o
amplo salão de
uma
igreja
sem
teto
sem
fiéis
só
chão
batido
e duro
pensei
mesmo
que
fosses
meu
último dia
a Carlos Pires
NOTURNO
essas
mãos
que
sobre ti desabam
pedem
a ira
de
mais um dia
a
fria lacuna
do
que deixas vir
ouvidos
calados
e
o vento
do
lado
de
fora
sintomas
de
um céu
em
desmanche
ou
uma voz
atravessada
no
abismo
a Gisberto Sauce Neto
[Gisberta]
[Poemas do livro Desmanche.
Rio de Janeiro: Editora Oito e Meio, 2019]

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