sexta-feira, 17 de maio de 2019



LÁPIDE

MARIA ficou oca de mim

quando de noite
abateu meus beijos

pôs fora todos os cheiros e
as formas que deitei no colchão

MARIA escavou um grito

quando de noite
abateu num sopro

o pó do meu nome



LÁZARO

hoje
que fostes viver
ao rés do chão
retorno à casa tua

antiga morada
guardada ao pó

suspenso em gestos
para não mover
um único grão

pois quero
tuas coisas assim

com olhos
atrás de gazes



MERGULHO

com a voz alta
das vias públicas
e lâmina surda

os suicidas
têm ao alcance
o aceno pardacento
de asas pensas

enquanto a destra
repousa
a esquerda aderna 



NUNCA ESTIVE COM UMA PUTA

dor de cabeça
como esta

quando então
o som do SONRISAL
me ampara

e deixa vir
a manhã

mas ela vem
com suas franjas sujas
e um sol
entre aspas

diacho de rei
auto coroado

sempre se põe entre mim
e as coisas das quais
só quero sombra



TESTAMENTO

Escrivaninha e vaso com flores
secas Tapete puído Porta da
frente emperrada Calendário do
tempo em que as putas eram
gentis Janela com vidro
trincado Gavetas com
cartas trancadas Banheiro
sem água Abajur com
lâmpada queimada Cozinha
com luz piscando Uma cadeira
caída A corda no teto
e seu laço Pássaros
crianças e cigarras
Pendurados na tarde




PASSAGEIRO ATÔNITO

que ninguém
agora
venha me dizer o
que já sei

das tardes tão abruptas
e o estalar das horas
que com elas vêm

playground das coisas infames
vejo os acenos que passam

mas não são
para mim

são para alguém
que lá longe vai

dentro de seus laços
guardado em papel bonito
e só

que ninguém
agora
venha me dizer o
que já sou

a Manuel de Freitas



ORAÇÃO SUBORDINADA

pensei que a distância entre
minha fome e teus antúrios
fosse a comoção do verde

esperança de te ver como uma árvore ocupando o espaço

a sombra dessa árvore
e seus frutos

pensei que
forçosamente
fosses um rio

margens volume
arrancar de raízes
casas bichos

pensei também
que fosses
o amplo salão de
uma igreja

sem teto
sem fiéis
só chão
batido e duro

pensei mesmo
que fosses
meu último dia

a Carlos Pires


NOTURNO

essas mãos
que sobre ti desabam

pedem a ira
de mais um dia

a fria lacuna
do que deixas vir

ouvidos calados
e o vento
do lado
de fora

sintomas
de um céu
em desmanche

ou uma voz
atravessada
no abismo

a Gisberto Sauce Neto [Gisberta]


[Poemas do livro Desmanche. Rio de Janeiro: Editora Oito e Meio, 2019]

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