sexta-feira, 17 de maio de 2019

imagem: diário liberdade


A VOZ DO VENTO

A TV transmite continuamente a imagem parada de um deserto. A janela emoldura um sol áspero, e aquela serenata de automóveis que te acordou, agora não passa de um silêncio sujo - ranhuras abafadas e longínquas. Então, como explicar essa aridez cor de ferrugem no reflexo do espelho? As marcas de noites acesas e o baque seco que atravessou a madrugada? O dorso cinza chumbo dos edifícios empurra o céu cada vez mais para lá e as dunas e trilhas do tapete puído que contornam tua cama, transtornaram o trajeto. Correu agora um vento já meio esquecido. A memória falha. Ao rever gavetas, nada te acrescentam. Surgem contas; anotações amareladas; escritas esquivas e muitas, muitas canetas caladas. Um telefone toca no outro andar. Passos e vozes atravessando a parede agitam o calendário, que insiste numa mesma data. Nova brisa vem carregando o almoço de alguém - alvoroço por dentro, não de fome, só um espasmo, inútil como essa brisa. Sobre a cadeira a corda e seu laço. Em cada passo a dúvida, devora e faz troça. Cambaleante a tarde entra. A luz dá lugar à sombra. Novamente a cadeira. Uma sirene rasga a noite. Na única luz acesa, uma mariposa se assanha, tamborilando contra o sol de vidro. A corda e seu laço. Sobre a cadeira, um único passo no ar, novo baque seco.



CONTO NÃO CONTO


Um conto novo - parece até dinheiro velho, mas era o que eu ansiava. À cada instante um novo volume na estante. Lombada e título. Miolo e capa.
Diferente do que eu sabia ser a tarde, em seus acúmulos, era minha estante e seus livros. Daí eu querer sempre mais. Não como um ocaso e seus acúmulos, mas um acúmulo em si mesmo, ter e ter. Não o éter indistinto, mas algo palpável e meu.
Minha estante, meus livros e a tarde eram para mim uma única coisa. Uma certeza.
Mas como tudo que é certo tem um outro lado - seu reverso - numa tarde, como outra qualquer, acondicionei em minha estante, um último volume. Era triste, e era o fim. Um fim que eu já divisara. Um fim cheio de espanto - e grave – como convém a um ocaso. Minha estante, meus livros e minhas dicotomias. Tudo num grande emaranhado que minha estante parecia não mais comportar, mas que me compunham. Tanto, que um pequeno volume de poemas, de grão, poeirinha, veio a mim como um achado. Vou me dedicando a ele, enquanto aguardo um novo conto.




SEBASTIANA E O PEIXINHO DOURADO

ô bastiana / doce prisão / tudo que eu quero / é viver nessa ilusão / então eu penso, amigo / que seria o fim / se bastiana não me prende assim
(bastiana - música e letra: marlui miranda/
gilberto bil – em o sol de oslo)

Dedos curtos numa mão gorducha, toda sexta-feira empunhava o ferro de passar. A mãe dizia que ela não era nossa empregada, que era uma amiga que vinha ajudá-la - mas ela recebia pelo serviço. Sem arestas, lisa e contínua, Sebastiana era toda ela: delicadeza. Nossas roupas, tratadas com deferência por ela, nesses dias, tornavam-se trajes finos. Enquanto alisava golas, contornando botões de madrepérola, cantarolava hinos religiosos, em sua voz afinada.
Mineira, casada, e com três filhos, morava numa casa simples em um bairro pobre da periferia. Em certas ocasiões, vinha tomar conta de mim e de meus irmãos, pois algum compromisso de minha mãe tornava sua atenção necessária. Numa delas - verão, com fins de tarde que armam temporal - aconteceu um acidente.
Minha mãe, sempre muito ciosa, neste dia, com a urgência do compromisso, deixou o aquário com nosso peixe dourado no parapeito da janela da sala. Janela com persianas articuladas que, com o vento, fechavam e abriam de par em par.
Após o almoço, o dia tomou um rumo mais lento, fazendo com que cada um procurasse um lugar fresco e se deixasse ficar.
O céu escureceu, e um vento muito forte atravessou a casa, levando a janela à convulsão. E lá estava o aquário - débil bolha de vidro com água e a pequena criatura em seu bojo. Com muita violência a esfera e seu passageiro foram lançados longe. O barulho chamou nossa atenção, e numa atitude rápida, praticamente impensada por nós, Sebastiana tomou de um jarro com água e socorreu nosso peixinho, que se debatia entre cacos de vidro numa poça de água. Daquele dia, lembro-me claramente: da luminosidade, do aquário e seu habitante colorido, e do susto, mas da Sebastiana, quase não me recordo. Seu rosto é um borrão, entre mãos gorduchas e dedos curtos.



CISMAVA NA TARDE, com o desenrolar de um vento quente carregando folhas secas sob o sol. O mesmo sol que exaure o sertão e que agora tornava o dia lento, movendo sua luz silenciosa sobre as ruas, sobre minha cabeça, sobre o tempo. Seguia. E as horas indiferentes ressoavam em meus passos, ressoavam no farfalhar das árvores e no murmúrio indefinido que aflorava dos vários timbres empilhados, aflorava das begônias de vulvas expostas - e o ar pendia ébrio.




MONÓLOGO

1º ato
É sempre assim. Ele chega, senta-se e começam as queixas. Fala que fala. Fala de si sem parar, e, quando eu começo, ele cala. Pensa que me ouve? É só “aham... aham!” com aquele ar parvo, olhos colados no teto. É sempre assim.

2º ato
Qualquer dia eu parto para cima. Todos esses anos de fêmea ferida. Eu juro, é no concentrado do meu ódio: ele vai se machucar. Também, pra que é que eu fui insistir nesta situação? No interior é que a vida segue no largo. É no simples que se vive. Tanto minha mãe avisou: “Filha, constrói tua vida aqui. Casa com teu primo Osvaldinho e vai viver perto do laguinho!”
Conselho dado. Conselho perdido.
Tudo conduzindo para o confortável da lida: estudo; namoro. Aquela vidinha só no liso, sem mágoa nem entrave.
Mas uma zoada diferente no horizonte, algo em mim também zoou. E a permanência das coisas se desfez. E era só devastar.
Montei mala, montei no bojo de um ônibus e fui dar com minha inocência lá pela capital. Fome eu tinha, eu não tinha era nenhum apetite. Com o tempo, a vida foi ficando meio frouxa, com contornos de coisa esgarçada, gasta mesmo. Minha saudade foi se esgueirando, se alongando, indo roçar minhas raízes. Foi nesse tempo que conheci o Alberto:
Eu: terceiro ano de odontologia.
Ele: quase formado, logo, logo um doutor.
Eu: geminiana, ascendente em leão, e um monte de coisa na casa 7.
Ele: carioca, descendência germânica, e todas as tralhas na casa da ex.

3º ato
Hoje ele nem sentou e já está se queixando. A mesma ladainha. Um nervoso disfarçado nos gestos, nas mãos. Me explica qualquer coisa, mostrando lá nele, alguma incongruência. Mas hoje eu também não estou lá muito senhora de meus hormônios: todos se digladiando, me pondo à prova. Estou menos humana, pronta pra dilacerar. Arrancar nacos grandes da vida. Sem remorso.

4º ato
Início de tudo é assim: tão bom. Cada coisa no seu lugar. Tamanho e forma no harmonioso de uma dança ritmada. Numa cumplicidade que torna as horas sem sentido. E o tempo não cabe em nós.
Da casa da ex, as coisas de Alberto vieram pra minha. Afinal, ele ainda morava na casa da mãe.
Com jeito, tudo foi se encaixando: nossos horários; nossos objetos; nossos contornos. Já não sabia onde eu começava e onde terminava o Alberto. Um movimento meu, e era ele que gesticulava; uma palavra dele, e o som saía de minha boca. Mas tempo passou, e no emaranhado de seu rastro, qualquer coisa de incompatibilidade tomou volume. Cresceu. Desandou.
Uma dor de cabeça, numa tarde sem fim, me levou de volta para casa mais cedo. Do elevador, uma fulana de cabelos molhados, recendendo a sabonete, passou por mim. Era um perfume conhecido.
No apartamento, o Alberto dissimulava gestos com frases feitas, numa cabeça úmida. Foi o fim.

5º ato
Tá lá ele de novo, vasculhando no teto, com seus olhos vagos, qualquer coisa que dê sentido às horas. Eu, no entanto, sinto em meus gestos um vazio, que se perde por esses cômodos. Inutilmente. O tempo se esvaindo.

6º ato
As tralhas do Alberto voltaram pra casa da mãe. Ele junto.
Na despedida, um abraço diagonal expôs a constância de nossos desencontros. Nem uma palavra.
Outra vez, minha saudade se insinuou. Contornos mais definidos mostraram um retorno sem adiamentos.

7º ato
Hoje ele se senta com vagar. Seu olhar parvo, ligeiramente vago, pousa em mim. Já não fala com gestos tão contidos, no grave da voz. Eu aponto qualquer coisa nele, e já não há tanta incongruência. Meus gestos preenchem o momento. Alcançam todos os cômodos, na amplidão de movimentos precisos.
– Seu Durval, pode fechar a boca. Já terminamos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário